Guest Blog – Julio Bin: A sociedade intoxicada

Recentemente participei de um evento em uma escola de propaganda e marketing de São Paulo, onde três jovens davam depoimentos sobre suas conquistas pessoais e sucessos profissionais. O objetivo era mostrar para uma plateia de universitários, como que a determinação, força de vontade e dedicação a um sonho, são fatores imprescindíveis na vida e carreira de um indivíduo. As características da nossa sociedade e as condições socioeconômicas dos três não faziam parte da mensagem, mas foi o que me fez sair do evento com este texto na cabeça.

O que me chamou a atenção foi a história de vida de dois dos convidados. Um deles, jovem executivo de uma grande agencia de propaganda, contava o caminho que trilhou para chegar ao olimpo desejado por 99% dos presentes naquele auditório: ser um publicitário de sucesso. Sua estória tinha um tom de rebeldia contra o sistema, repleta de momentos de espertezas e malandragens necessárias para driblar as regras e, claro, sempre contando com o apoio da família e “paitrocínio” para completar sua renda durante os anos que trabalhou de graça ou ganhando muito pouco, enquanto adquiria a experiência necessária para, se tudo desse certo, ser efetivado como funcionário.

Logo depois um outro jovem expôs a sua história. Na verdade ele desconstruiu a história não só do palestrante anterior, mas a de todos que estavam na plateia.

Ele contou como nasceu e cresceu “do outro lado da ponte”, num ambiente hostil onde o estado deixou de agir há muito tempo tornando precários os serviços básicos de saneamento, educação, saúde e onde também a sociedade sabe, mas prefere não ver o que acontece. Começou dizendo que todos ali provavelmente já tinham ouvido falar de como é viver nessa situação por meio dos noticiários, normalmente sobre a miséria, trafego de drogas, violência, criminalidade e, claro, sobre os bons projetos sociais que minimizam o abandono do estado.

Do outro lado da ponte é uma excelente metáfora para demonstrar as periferias pobres das cidades brasileiras. Em alguns casos é do outro lado do rio, do outro lado da estrada, morro acima, enfim, sempre existe algo que separa a pujança econômica da miséria e o descaso.

Enquanto fazia conexão com os presentes, eu tentava imaginar o que se passava na cabeça daqueles universitários que provavelmente só conheciam essa realidade pelas telas de TV ou de cinema. Aquele jovem, ex-drogado, ex-ladrão, ex-traficante, excluído socialmente, contou como progrediu no crime e como sobreviveu (literalmente) para poder contar sua história. Disse que seu sonho maior era simplesmente fazer parte da sociedade como indivíduo, como cidadão. Queria vencer para ser reconhecido e ter condições financeiras para possuir e consumir os produtos e serviços que habitam os desejos de qualquer pessoa.

De repente percebi que naquela sala estavam, frente a frente, a causa e o efeito, a ação e a reação, o problema e a solução. O jovem da favela saiu da miséria extrema ao entrar para o crime organizado, justificando que queria ser alguém, ser útil e principalmente porque queria ter o que nunca teve: respeito. Ele foi bem sucedido em seu trabalho, mas conseguiu perceber que essa “carreira” tornaria sua vida muito interessante, mas curta, como a de vários de seus amigos.

Procurou ajuda para deixar de ser estatística e mudar o seu destino. Teve a sorte de encontrar pessoas do bem, anjos vestidos de voluntários com a missão de recuperar pessoas que buscam alternativas de sobrevivência. Foi a partir daí que se tornou em um mensageiro de como essa transformação é difícil, mas possível.

Se fosse outro público, outro local, outro contexto, eu provavelmente não teria entendido a mensagem dessa forma, mas minha conclusão foi que a base de nossa sociedade é um sistema econômico que valoriza e motiva os jovens a buscar o sucesso financeiro e social por meio do TER. Ter mais objetos de marca, um carro novo, uma cara nova, enfim, ter bugigangas que não precisam ter. Um sistema que treina e qualifica para uma guerra social onde o perdedor é excluído, desqualificado, desmotivado e desempregado.
Fiquei com a clara percepção de que estamos formando nossos jovens para que possam manter esse sistema funcionando e, nesse caso, para se especializarem na comunicação e venda de produtos e serviços que, quase sempre, são supérfluos. Independente do poder aquisitivo, todos fazem parte da mesma sociedade, são cidadãos do mesmo país e vivem realidades completamente diferentes. O que possuem em comum são as mensagens que motivam seus desejos, isto é, pertencem a diferentes segmentos, diferentes “targets”, mas são impactados pelas mesmas campanhas publicitárias.

Saí do evento com muitas perguntas.

O que precisamos fazer para mudar esse modelo econômico que lucra convencendo pessoas a ter o que não precisam, para ser felizes? Por que enxergamos os problemas sociais, sofremos com a ineficiência, a burocracia, reclamamos da falta de educação e saúde, da corrupção, das drogas, da morte de nossos jovens pela violência urbana e, mesmo assim, não conseguimos acreditar que contribuímos diariamente para que estes problemas existam? Acho que o sistema está doente e com ele estamos todos nós.
Os heróis desse lado da ponte são aqueles que conseguem ser executivos ou empresários de empresas que alimentam esse sistema doentio. Enquanto os heróis do outro lado da ponte são aqueles que conseguem vencer todas as barreiras criadas por esse mesmo sistema. Acho que os verdadeiros heróis são aqueles que conseguem sobreviver ao sistema, transformando suas vidas em um exemplo de como é possível se curar dessa doença.

O economista e filósofo Adam Smith escreveu em 1779 um livro sobre a causa da riqueza das nações e concluiu que: se empresários, trabalhadores e consumidores, se empenharem de forma intensa aos seus interesses próprios, o resultado será a qualidade de vida para todos. Em outras palavras, a soma dos egoísmos resultaria no bem-estar social.
É justamente esse modelo arcaico herdado da Revolução Industrial, o alicerce da economia e o molde de nossa sociedade até hoje. Está mais do que na hora de questionarmos a insustentabilidade desse modelo nos perguntando o que realmente significa crescimento econômico e bem-estar social. Até que ponto vale a pena buscar insaciavelmente os ganhos financeiros (lucro) em detrimento da vida?

Mas a principal reflexão é: nesse sistema doente, quem realmente está intoxicando e quem está sendo intoxicado?

*Julio Bin é consultor, professor e palestrante nas áreas de sustentabilidade e desenvolvimento de estratégias e negócios sustentáveis com foco na Nova Economia (verde). Atua há mais de 12 anos com o planejamento estratégico de organizações e a implementação de práticas sustentáveis no modelo comercial e de gestão. Bacharel em Administração de Empresas pelo Mackenzie/Sao Paulo, Pós Graduado em Marketing pela Westminster University/Inglaterra e em Negócios Sustentáveis pelo Programa de Liderança para a Sustentabilidade da Universidade de Cambridge/ Inglaterra. juliobin@gecko.com.br | http://br.linkedin.com/in/juliobin

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