Ciência holística é ferramenta para limitar degradação

Maria Auxiliadora Moraes Amiden no Schumacher College, 2010

Valor Economico, 20th Jun, 2011

Desde maio de 2010, a principal tarefa de Andressa de Mello, 30 anos, gerente de sustentabilidade da Natura é finalizar a estratégia do programa de resíduos que a empresa deverá seguir pelos próximos dez anos. O plano é potencializar o projeto de logística reversa que já funciona como piloto em algumas cidades do Brasil, aumentar o uso de materiais reciclados nas embalagens e fomentar o desenvolvimento de cooperativas na região do entorno da fábrica em Itapecerica da Serra. Para isso, Andressa aposta na inclusão de aspectos mais humanos na cadeia de resíduos e na tarefa de mudar a visão da sociedade sobre o conceito que se tem sobre o lixo. “Na natureza tudo é reaproveitado como parte de um ciclo. Lixo é uma criação humana”, afirma.

A ideia está bem fundamentada. Entre 2009 e 2010, Andressa fez um mestrado no Schumacher College, escola de ciências holísticas e ecologia profunda, situado na pequena cidade de Totnes, sudoeste da Inglaterra. Para escrever a dissertação final, durante sete meses visitou cooperativas de catadores, recicladoras, embaladeiras no Brasil e na Colômbia. Conversou com consumidores e revendedores de produtos. “O curso em ciências holísticas conecta diferentes ciências, como matemática e biologia, e te manda ir ao fundo do problema antes de desenhar qualquer conclusão”, diz.

“Procurei um mestrado que complementasse o conhecimento adquirido dentro da empresa e agora estou colocando em prática o que aprendi”, afirma ela.

Criado em 1991, com o objetivo de encontrar respostas para os dilemas do planeta, o Schumacher College é reconhecido mundialmente por sua filosofia e métodos de aprendizagem fora do convencional. Com a ideia de que grande parte dos problemas no mundo surgiu da ciência ocidental, cartesiana e reducionista que não reconhece outros saberes e não enxerga a relação entre diferentes fenômenos, a escola ensina uma ciência que estimula o uso da intuição, emoção e conexão com a problemática.

“A holística é uma ciência de qualidade mais adequada para lidar com a degradação ambiental e social do mundo”, explica Stephan Harding, coordenador do mestrado em ciências holísticas do colégio, e autor do livro “Terra Viva – Ciência, Intuição e Evolução de Gaia”, publicado no Brasil em 2008, pela editora Cultrix.

O nome faz homenagem ao economista alemão E.F Schumacher, autor do livro “Small is beautiful: economics as if people mattered” (O Negócio é ser pequeno: um estudo de economia que leva em conta as pessoas), publicado em 1973. No livro, Schumacher defende o desenvolvimento do comércio local, a produção em pequena escala direcionada às necessidades das pessoas e o uso de tecnologia simples. Essa filosofia ficou conhecida como “o pequeno é belo”. No quadro de professores aparecem profissionais como o físico Fritjof Capra, ambientalistas como Paul Howken e Wolfgang Sachs, e economistas como Bernard Lietaer e Manfred Max-Neef. Os cursos podem ser de curta ou longa duração.

Mas, se um tempo atrás, falar em emoção, intuição e felicidade dentro das companhias era um tabu, hoje a conversa é outra. “As empresas se abriram muito para os aspectos humanos, valores e qualidade de vida. Sabem que se não for por esse caminho, perdem oportunidades e talentos”, afirma Maria Auxiliadora Amiden, Diretora da área de Educação da Symnetics, consultoria em gestão de estratégia para sustentabilidade empresarial.

Economista interessada em filosofia indiana, ela descobriu o Schumacher College em 1998, quando o economista Amartya Sen ganhou o Prêmio Nobel por suas contribuições com a teoria do bem-estar social. “Li a bibliografia usada por ele e descobri nomes como E.F. Schumacher e o filósofo Rabindranath Tagore”, lembra. Em 2010, Maria Auxiliadora finalmente se matriculou no curso Economia da Felicidade, com professores do Butão, como Dasho Karma Ura, presidente do Centro para Estudos do Butão, em Thimphu, capital do país.

Para ela, as dinâmicas em grupos são um dos momentos mais proveitosos do curso, com rodas de conversas nas quais o professor dialoga com os alunos e juntos formam numa ideia. “São discussões construtivas sem nenhum senso de julgamento sobre a opinião do outro, sem julgar o que está certo ou errado. As pessoas dizem o que realmente pensam”, afirma.

A mesma prática foi estabelecida no seu grupo de trabalho com 20 representantes de empresas dentro de Symnetics. ” Esses debates alcançam um nível muito mais profundo de entendimento. Ideias completamente conflitantes, que no início parecem improváveis, tornam-se soluções viáveis”.

Maria Auxiliadora lembra que embora o conteúdo dos cursos oferecidos seja de excelente qualidade, uma das principais lições na passagem pelo Schumacher está nas atividades fora de sala de aula, que mostram o mínimo de hierarquia vivido ali. Passar aspirador de pó, cozinhar, fazer jardinagem e limpar banheiro fazem parte da curiosa rotina dos estudantes. “É uma oportunidade de oferecer um serviço a outras pessoas”, afirma. “O mais interessante: esse trabalho é compartilhado pelos próprios professores.”

A mínima hierarquia entre as pessoas, “também é uma forma de estimular a criatividade”, explica Cristina Carvalho Pinto, presidente do Grupo Full Jazz, que trabalha com marcas que querem fazer negócios mais amigáveis. ” As pessoas ficam mais a vontade para dar suas opiniões. Somos uma fábrica de novas ideias e acredito que todo mundo na empresa tenha sempre alguma coisa para dizer”, afirma.

Cristina, que conheceu o colégio em 2007 e sempre manteve uma relação estreita com Hazel Henderson — economista e futurista ligada ao corpo de professores do Schumacher – explica que o êxito das atividades da escola está baseado na filosofia oriental sobre o conhecimento. “Para o oriental, a sabedoria não implica na concessão de privilégios. O conhecimento existe para servir. Isso faz toda a diferença”, afirma.

“Na cultura oriental, o verdadeiro conhecimento é aquele que acontece quando a mente rearranja as informações que foram adquiridas por meio de estímulos. É ter um insight, uma nova visão, ser original. No Grupo Full Jazz também aprendemos a trabalhar dessa forma.”

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