A Jornada do Herói: Valores Humanos em Joia Rara

Pelos muitos blogs que Simon já escreveu sobre a novela Joia Rara, transmitida às 18 horas pela Rede Globo, é de conhecimento de todos que tanto ele como eu somos grandes admiradores dessa grande obra. A cada capítulo discutimos sobre quão bem feita é a trama, como a história evolui de forma bem estruturada e de como os personagens são bastante reais, na forma como lidam com seus dramas pessoais.

Jornada nos Himalaias

Jornada nos Himalaias

Um dos capítulos, que foi ao ar no início da semana passada, particularmente chamou muito a minha atenção. Uma das cenas que muito me emocionou nesse capítulo, foi a que Ernest Hauser, interpretado pelo ator José de Abreu, reassume a sua fábrica e vai comunicar o fato para aos empregados na produção.

Ernest comunica aos empregados as mudanças na fábrica

Ernest comunica aos empregados as mudanças na fábrica

Ele desce até o chão de fábrica para informar a todos que muita coisa vai mudar a partir de agora, como o horário de trabalho, que será menor, e a qualidade da comida que muito melhorará. Essas entre outras medidas farão com que os empregados possam ser muito mais felizes no trabalho.

Por ter trabalhado diretamente na produção e sentido como os demais as dores de uma gestão somente centrada no lucro e que não respeitava as pessoas, pôde ampliar sua consciência e realmente ver diferente. Como muito se discute hoje no mundo dos negócios, ser próspero significa muito mais do que dar lucro, significa ver a organização como um todo, um organismo vivo que precisa de energia e alegria para crescer e dar resultados sustentáveis.

Ernest trabalhando na produção

Ernest trabalhando na produção

É muito interessante ver a evolução do personagem Ernest, que foi do auge ao mais baixo nível na esfera social, para então retornar ao topo de forma transformada. Sua história muito me lembra da Jornada do Herói, conforme relatada por Joseph Campbell, um dos maiores estudiosos de mito do século XX. Essa jornada é a que todos somos convidados a fazer em nossas vidas, sendo que, porém, somente alguns têm a coragem de empreendê-la.

Ernest e Pérola

Ernest é um desses exemplos, e como diz em uma das cenas, ao experenciar os dois estremos, a profunda dor sob a tirania de Manfred e a grandeza do amor incondicional de Pérola, pôde encontrar o caminho do meio, o seu eu autêntico, a sua expressão particular na vida.

Para mim, Ernest é uma metáfora da história do príncipe Gautama, que depois de experimentar a luxúria e a riqueza na cidade e a mais profunda privação na floresta, encontra o caminho do meio, que o faz expandir a consciência, iluminar e se tornar Buda.

Ernest morando no cortiço

Ernest morando no cortiço

Nesse mesmo capítulo, em outra cena, Yolanda, interpretada por Carolina Dieckmann, tem uma ideia transformadora, criar creches comunitárias para que as mães que moram no cortiço e que trabalham fora possam deixar suas crianças durante o tempo de ausência.

O mais fantástico acontece quando ela convida os três monges budistas para serem os professores, guias, nessas creches. Eles já fazem um trabalho excepcional, ensinando Pérola e as crianças do cortiço sobre valores humanos através das brilhantes histórias da tradição oriental e budista que contam. Como a história da discussão entre os animais da floresta que disputam a posse de uma árvore frutífera. Ao tentar definir quem era o proprietário dela, acabaram por descobrir que ela era de todos, pois, se desenvolveu há muito tempo e com a colaboração de cada um e de muitos ancestrais.

Os monges ensinando valores humanos

Os monges ensinando valores humanos

E é exatamente esse tipo de educação para a vida que falta em nossas escolas atualmente. Entre 2010 e 2012 tive o privilégio de fazer um curso de especialização, criado na Índia, pelo educador Sathya Sai Baba, chamado Programa Sathya Sai de Educação em Valores Humanos e que tem por objetivo a formação do caráter a partir da introdução dos cinco valores humanos universais na educação de na vida de cada criança: Amor, Verdade, Ação Correta, Paz e Não-Violência.

Esse programa já foi e é desenvolvido em muitas escolas pelo mundo, como é o caso da Escola Sahya Sai de Casa Branca, no município de Brumadinho, em MG, e a chamada Escola do Milagre, na Zâmbia, que recebeu reconhecimento internacional por recuperar, através do amor e da introdução desse programa de valores humanos, crianças desajustadas e com problemas de aprendizado.

Crianças e eu em uma atividade do programa de educação em valores humanos

Crianças e eu em uma atividade do programa de educação em valores humanos

Em 2012, fui convidada para ser uma das avaliadoras técnicas do Prêmio Criança da ABRINQ, que premia iniciativas que melhoram as condições de vida de crianças entre 0 e 6 anos de idade. Tive a felicidade de conhecer uma das premiadas, a escola Estação da Luz, que fica em uma região de subúrbio no município de Eusébio, no Ceará. A escola introduziu o que intitulou de Projeto Educare baseado no Programa Sathya Sai de Educação em Valores Humanos e que se desenvolve de forma ampla, incluindo além dos alunos, professores, os demais funcionários e os pais.

Cerimônia de entrega do Prémio Criança da ABRINQ

Cerimônia de entrega do Prémio Criança da ABRINQ

A partir da introdução dos valores humanos em todo o processo pedagógico, como diz Patrícia, uma das educadoras da escola, é possível em cada criança: “retirar e resplandecer aquilo que se tem, de dentro para fora. Já imaginou como é o interior de uma criança? É belo e puro. É só cuidar com carinho que o que vier para fora terá muita chance de florescer para o bem.” Com essa educação baseada em valores, “não há como produzir comportamento de bullying, por exemplo, presente em ambientes em que não existe diálogo ou harmonia.”

E são esses os valores transmitidos pelos monges na educação de Pérola e das demais crianças do cortiço. E que Yolanda quer introduzir nas novas creches.

O poder transformador das duas mensagens transmitidas nesse capítulo é a resposta para muitos dos nossos problemas, que tanto nos incomoda em nossa realidade atual: a necessidade de transformação dos ambientes de trabalho, tão carentes de significado e de felicidade e a existência de mais escolas que formem um caráter firme e robusto nas crianças. Ernest, Pérola, Yolanda e os monges nos ensinam o caminho.

Desenvolvimento de uma educação de qualidade significa preparar cada um para trilhar a sua jornada pessoal, cultivar a coragem de encontrar seu caminho do meio, sua iluminação, para então realmente transformar a realidade coletiva e a experiência de realmente ser humano.

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4 Respostas para “A Jornada do Herói: Valores Humanos em Joia Rara

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  4. Maria, não sei se vc conhece, mas tenho voltado a ler “Os sete saberes essenciais para a Educação do Futuro” de Edgar Morin. Ele cita a necessidade e entender a essência humana, traz a necessidade de revisita à ética humana. Desde que tive contato pela primeira vez com o texto, há uns 2-3 anos atrás, não me lembro exatamente, foi difícil compreender integralmente a estrutura proposta por Morin. Mas cada dia que passa ela passa a fazer mais sentido e tem tudo a ver com a jornada sua e do Simon. Acho que um shift na Educação seria parar de vê-la compartimentada em instituições ou prédios e assumir que ela ACONTECE de forma profundamente pervasiva e influente em nossas vidas. Em nossa família, vizinhança, comunidades locais, escolas ou empresas. Acredito que em todos estes contextos (Complexos e que expõem a diversidade humana) valem as palavras e pensamentos do Morin, cabe a nós interpretá-los, eventualmente complementá-los/adaptá-los, e praticá-los junto com outras pessoas.

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